sexta-feira, 4 de julho de 2008

SALMOS CAP 82

1- [Salmo de Asafe] Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.
2- Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios? (Selá.)

3- Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.

4- Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

5- Eles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam.

6- Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.

7- Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos príncipes.

8- Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois tu possuis todas as nações.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

DE TUDO CHEGA A HORA

DE TUDO CHEGA A HORA

Naquela manhã invernosa, e precisamente por assim ser, dei-me ao leito por pouco mais do
costume. E sonhei um sonho terno, um deleitoso deslizar por cima de nuvens, sendo que minha mãe
me conduzia pela mão. Coisa estranha! Antes de acordar trouxe-me à beira do leito, havendo dito:
— Hoje à tarde, com o sol quente, vá às rochas e deite-se a ponto de dormir, ouviu?... E
repetiu isso por vezes, tendo-lhe eu respondido favoravelmente, por sentir em mim mesmo que
assim devia ser.
Ao acordar, naquele mesmo repente, tinha de tudo a mesma noção, a mesma certeza, a
consciência exata de que assim seria o melhor e mais justo. Em minha alma reinava também um
ânimo novo; um prurido de fé e novas esperanças. A vertente interna aflorava em jorros de vida e
anseio de novas épocas. Eu me estudava, focalizava-me e com ou sem explicações consentâneas, ou
aparentes, assim me surpreendia. O sol brilhava, de novo, nos horizontes de meus dias e de minhas
obrigações!
Posto em pé, fui à cozinha, onde Sinhá Marta reinava, contando-lhe o maravilhoso sonho,
todinho, detalhe por detalhe.
E ela disse suas coisas:
— Valha-me Deus!... Rezei tanto por Sinhá Áurea... Só mesmo Deus querendo e Sinhá
Áurea aparecendo!...
Olhando-me bem no rosto, com aqueles olhinhos que se perdiam no fundo das covas
obituárias, inquiriu:
— Sinhô, vai às rochas?... Não vá faltar!...
— Claro que irei, Sinhá Marta.
— Mas tenha cuidado!... Fique em lugar seguro...
O dia transcorreu com sabor e interesse por tudo. Vi a meus filhos com outros olhos, mimeios,
senti vergonha do já feito. Mas, que fazer, que dizer, como inculcar-me tanta culpa, se, afinal,
contra mim mesmo, se levantava aquela tempestade dentro de mim? Assim como ao homem não é
dado poder contra os tufões e cataclismos telúricos, assim também nada podia contra um mal de
alma que das profundezas de mim mesmo se levantava, pondo-me a vida em tresmalho.
Aquele dia, porém, foi um dia de reconquista feliz!
— Agora vou ao penhasco! disse a mim mesmo, pelas três e meia da tarde, sobraçando uns
sacos de estopa, para deles fazer pelo menos travesseiro.
Desci margeando o rio, venci aqueles dois quilômetros e pouco, subi o último morro e
encaminhei-me às rochas, tendo arrumado lugar seguro numa cavidade. Via apenas uma nesga do
horizonte; nada do rio, só ouvindo o ronco das águas em revolta. Arranjei os sacos de modo tal,
ficando com as costas apoiadas em maciez e a cabeça regularmente instalada. Procurei topar
Morfeu, frente a frente.
Não sei precisamente quando tenha adormecido; mas sei que ouvi dizer, com voz firme e
imperiosa:
— Tire os sacos debaixo do corpo e da cabeça!
Devolvido à consciência por advertência tão inesperada, mas feliz pelo ocorrido, atirei os
sacos ao rio, calcando a cabeça na face granitosa da pedra.
E fiz, de novo, por adormecer.
Pruridos suaves, então, passaram a me acariciar todo. Era como vagar sobre nuvens,
cavalgar a própria brisa, do ir ao embalo de cânticos angélicos. E saí, naturalmente que saí do
corpo, vendo-o ficar para ali, deitado na frincha da rocha, como se me fora coisa de imensa
importância.
Condenados aos grilhões carnais, muita vez, lastimamos o fato; em vendo a máquina para
ali, como utensílio primoroso, senti o quanto lhe apreçava. Tangido por alguém, revi na minha
memória a tudo quanto podia ter já feito e vivido. E senti que devia àquele instrumento um mundo
todo de dívidas!
— Venha, filho! — convidou-me minha mãe, estendendo-me a mão carinhosamente. Fui
com ela e permaneci no ar, sobre o rio, sentindo a alma em deleite e o corpo, porque tinha um
corpo, em ponto de pluma. Era leve, feliz, superior.
— Isto, — tornou a dizer minha mãe, é o início de uns trabalhos. Temos que cooperar nos
serviços de Jesus e Suas legiões amoráveis; devemos obrigações, à Terra e à sua humanidade. Você
vai contribuir para espraiar o Consolador no mundo, que, como promessa do Céu à humanidade,
fornecer-lhe-á informes preciosos sobre a vida e seus confins, a Terra, e o infinito que a cerca.
— Farei o que Deus queira, mamãe...
— Procure dar de si o possível, assim como tem com que fazê-lo, sem julgar jamais que
Deus lhe venha a faltar com apoios. É hábito do homem atribuir a Deus a responsabilidade de suas
negligências. Não quero, portanto, que pense sobre Deus com imposições quaisquer; quero que faça
o possível com o que tem e pode. Deixemos as ferramentas que não temos em paz, lembrando que o
bom trabalhador usa do que tem para produzir com satisfação o que lhe esteja ao alcance.
— A senhora sabe que nada entendo destas coisas...
— No fundo da mala velha, estão jogados uns livros... Tire-os para ler.
— Está bem, mamãe. E dou graças ao bom Deus.
— Naturalmente, e volte ao seu corpo.
E com isso, arrastado como que por um vendaval, dei acordo de mim; tinha a parte da
cabeça dolorida, mas também tinha a alma transbordante de alegria.
Não andei até a casa; corri, ansioso por relatar a Sinhá Marta o ocorrido. E ela, marejantes
os olhinhos fundos, nada disse, nada pôde dizer. Olhou para cima, como que a buscar um Deus de
fora prosternando-se ante Ele, no santuário de sua alma bem formada.
Deixei-a entregue a suas meditações, indo para o meu quarto. E orei com fervor, assim
como nunca tinha feito em toda a vida. Depois, revolvi a mala velha e retirei dela uns poucos de
livros, dentre eles quatro espíritas e dois ocultistas, todos editados em Portugal e trazidos para o
Brasil por um tio de muito falecido.
Nunca os havia manuseado; mas sempre seria tempo de o fazer. E ali começou a minha
busca teórica sobre as coisas do homem, que são as coisas do espírito. Das coisas de Deus, porque
são as coisas do homem. E nesse amálgama teórico-prático, de tal modo me enfronhei, de tal jeito
me fiz apóstolo, que hoje, dou por graça de Deus o assim ter conseguido realizar. Porque, enquanto
os sublimes ensinos passavam das páginas pródigas aos recessos do meu entendimento, aos arcanos
de minha consciência, em evidência de ações decentes fazia por transcorrer os dias. E posso afirmar
que era isso, justamente isso, o que Deus esperava de mim. Aliás, é isso o que espera de todos, pois
que de palavrórios forro está o mundo, não sendo menos certo, também, estar besuntado de
formalidades presumidamente repletos de virtudes absolutistas.
Todo caso, os que compram ou os que vendem tais formalidades, sejam elas de teor material
ou intelectual, não provam, e nem jamais poderão fazê-lo, a eficiência de seus argumentos. Os
meneios são feitos com esmero clássico, e com grande pompa a distribuição, bem assim como
principesco é o preço; mas, para todos os efeitos, a comprovância do valor intrínseco é zero! Tereis
sempre disso a prova, somando o número daqueles que se apresentam nos vossos trabalhos práticos,
apesar das muitas regalias adquiridas, como simples viajores da inconsciência e, não raro, do
desespero. E que lei salvadora é o amor! É que em Deus não prevalece o princípio de dissensão! E
por ser assim, irmãos mourejam pelas regiões menos recomendáveis, e algumas até indescritíveis,
apaniguados de todos os credos e matizes de credos.
A lei é simples — quem não souber, busque saber; quem souber, faça por praticar. Não se
pode ser eternamente ignorante e nem negligente sem responsabilidade. A lei de progresso é um
fato e a maior soma de conhecimentos implica em maior grau de obrigações. Ninguém poderia fugir
a essa regra natural.
Fiz-me, portanto, bom leitor e regular praticante

ASSIM ACONTECERA

Assim de fato acontecera — Ana, a querida esposa, depois de meses de tormentosa doença
mental, encaminhando-se ao penhasco que montava divisa lá nos confins da fazenda, bem lá nos
fundões onde também desaguava certo riacho, por ele se lançara, indo perder--se por entre as águas
em revoluteio, nunca mais se tendo dela notícia.
Não mais se lhe podia sondar os passos, porque noite e dia era aquele andarilhar sem fim,
falar sozinha, discursar, afrontar, contender, para logo mais cair em dolorosa quebrantura moral,
angustiosa prostração de corpo e alma. Vivia livre, à vontade, pois de si nunca demonstração dera
de que pudesse um dia fazer o que fez ou tornar--se perigosa. Aos quinze meses de tormenta,
cauterizados todos na dor, não mais se lhe davam atenção, sem ser a respeito daquilo que lhe
dissesse comer, vestir, higienizar-se.
Quanta amargura, meus Deus! De lembrar se me enfronha a alma no negror das brumas que
a memória teima em reviver fazendo que meus olhos de espírito se marejem. Mas se assim foi,
contemo-lo então, ainda que sob o pélago de torturas cruciantes. Afinal, não sei de quem tenha
vivido alheio ao manto de grilhões os mais félicos. E não seria eu, é claro, o primeiro em favor de
quem abrisse a vida direito ímpar de precedência.
Os anos lá se vão, ou nós por eles, e com isso o feliz desembargo; Ana, hoje, meiga e amiga,
refeita em face das leis superiores, ou em face de si mesma, o que é mais exato, marca tempo nos
serviços de socorro, ora espargindo aquelas dádivas que o Pai Comum nos lança em mãos, ora
extraindo de si, de suas experiências, o com que ofertar lições a irmãos ainda viajores de
primordiais caminhadas pelos sendeiros da consciência individual. Bem faz quem aproveita as
dores bem curtidas! Convertê-las em jóias da alma pelas lições que encerram, eis o único mérito de
sofrer. Fora isso, favas à dor! E se por inteligência, puder alguém esquecer-se de que tal monstro
existe, tanto melhor.
Enquanto isso, enxugo meu pranto... Bem se vê que percorro caminhos por legiões e legiões
de irmãos já percorridos. Enxugo meu pranto e prossigo narrando, porque para isso fui chamado,
por aqueles que do Senhor Planetário mais vizinhos são, por evolvimento, e que, por isso mesmo,
dando guarida a Seus Desígnios, em favor do Consolador prometido, buscam ofertar todos os
testemunhos, para que um dia, o mais cedo possível, a face obumbrada da Terra se apresente com
rasgos de claridade que jamais tenham fim.
Meus dias então, depois que Ana desaparecera no turbilhão das águas, transformaram-se em
programa de horror a sorver. Chego a pensar, ainda, como os terei suportado! E diz-me qualquer
coisa à consciência, que se não fora a benção das amizades astrais, em, serviço de tutela, também
teria sucumbido. É certo que, ao cabo de ano e meio a contar da triste jornada, as luzes do céu se me
foram tornando próximas e pródigas em contatos sublimes e suavizantes; mas, até então, como terei
suportado o azedo de tamanho cálice?! ...
Sabe Deus o que é de justiça.
E por assim ser, por ser de justiça, sangrei os pés nos calhaus abismais, tirei de mim o que
parecia não ter, venci um tempo e consegui enfrentar-me, mais tarde, sem ter de que me
envergonhar. Eu devia e tinha de pagar... Havia semeado a dor em seara alheia, havia conspurcado
o lar alheio, dera-me em outros tempos a causar horrores e loucura.
Eu e Ana, em vida anterior, sendo responsáveis por dois lares, tendo sobre o que pesar com
as atitudes menos elegantes, nem por isso nos demos a respeitar o que manda o espírito da Lei;
abandonando os respectivos lares, deixamos de um lado uma mãe e dois filhinhos e de outro um pai
e seis rebentos, todos entregues ao mar das incertezas e aos aguilhões do desespero. Afronta e
opróbrio foi a farta semeadura de nossos dias! E como não ter de pagar? Já disse alguém que é fácil,
cômodo e aparentemente respeitável, praticar um ato material e ofertá-lo a Deus, à guisa de religião.
Com isso chegar a sentir desobrigada a própria função de obrigação espiritual. Mas, quem disse que
o Céu pediu isso? Quem foi que serviu a Deus, colocando ofertas materiais em lugar de ações
decentes?
Fosse espiritualidade o ato de oferta material, e eis que os abismos não teriam a que
instância judiciária prestar serviço! Contivesse regular soma de respeito o fato de estarmos de
acordo com o próprio modo de pensar, quando cremos em doações exteriores, e todos os
paganismos de todos os tempos teriam feito a emancipação do espírito que transita há centenas de
milhares de anos pelas brenhas da terra sólida e pelos vales das regiões astrais. No entanto, felizes,
bem felizes, somente aqueles que se valeram da senha única — o amor no trato para com os seus
irmãos de jornada.
Sou disso testemunha cem por cento. Esqueci o dever para com o meu lar, abandonando
mulher e filhos, sem contudo deixar ao léu das cogitações a dobragem de joelhos diante de altares e
outras contrições do menu litúrgico. Dizia para comigo, que todo homem tem direito a um tanto de
cauda, conquanto não implique isso em abandono das coisas da fé. Mas assim não determina a
Ordem Suprema. E não tendo força de Lei o que é feito pelo homem à revelia da Lei, só tinha de
fato de esbarrar nas próprias ações. E esbarrei de maneira violenta! Foi um tranco cruel, sofrido em
face de meu equilíbrio o mais íntimo, um choque que me atirou por inteiro aos braços das trevas!
Foram anos de romagem dolorosa pelos rincões inferiores, onde trevas e gemidos, uivos lancinantes
e anátemas se oferecem em catadupas apocalípticas.
Um milhão de vezes é preferível qualquer dor das de que pode ser ofertante a vida na carne!
Todas as lepras, todos os cânceres, nunca somariam em igual ao que se herda por valados tais! De
par com a turbulência física, porque há um físico, levantam-se, de dentro do ser avalanches de
monstruosas coações de ordem espiritual, moral e mental, a ponto de enlouquecer, se fosse, se para
tanto tivesse mérito o infeliz viajor de tais plagas! A loucura seria uma benção.

Não obstante tamanha investidura infernal, ainda vim de ter de perder, em futura vida, ao
objeto de todos os caminhos de minha alma. Não atribuo senão a Deus, tanto que a amava, a graça
de ter vencido a tão cruel transe. Todos os apoios de familiares e conhecidos, principalmente de
dois filhinhos que ficaram sem mãe, de nada valiam, parece que de fato não valeram em coisa
alguma. O que valeu é que eu tinha de sofrer, tinha de resgatar-me.
Passei noites à beira do rio, subi um milhão de vezes ao alto da penha, fiz mil pensamentos
escabrosos por dia; mas nunca tive coragem para atirar-me grotas abaixo, esfrangalhar-me nas
quinas rochosas, depois sumir no estrondear das águas.
No entanto, que maravilhosa era a paisagem! Naquele confim da fazenda, o estuário em que
se convertia aquela infusão de belezas, sobre o que fosse faria a alma estrugir, menos porém rumo a
coisas tétricas. As águas em revolta, desfaziam-se em estrondos e espumas, repiques e coroas
alvíssimas por cima de dorsos e lajeados milenares, indo recuperar-se ao longe, naquele espraiado
remansoso e poético, atingindo a franja sinuosa da mata virgem, por entre o que, nas épocas de
enchente, rumorejantemente se lançava.

Para berço de vida, isso sim estava bem. Nunca, porém, para túmulo do quer fosse, que isso
saberia a sacrilégio. O belo não devia ser para as coisas vãs, e menos, muito menos ainda para o
crime! A terra se testemunha como mundo embrionário em evolução, quando seus expoentes
lançam mão do bom e do belo para aquele fim que é aviltamento. Nos cimos espirituais entre ética e
estética não tem cabimento cogite-se em possíveis lacunas. Fatores entre si paralelos por força de
virtudes, deles não lança mão o homem com o fito de profanação. A ética humana em tais paragens,
é cultivar pelo amor, desenvolver pela devoção e utilizar pelo mesmo sentido santificante de vida.
No entanto, Ana fizera daquilo escárnio o seu sarcófago e a minha cela de penas e lágrimas.

Minha mente conturbada, até mesmo abalada em seus dispositivos ordinários, dera por mostrá-la a
emergir das águas, a clamar, a exigir salvamento, por meio de gemidos que se perdiam na escuridão
da noite e no cântico alegre do dia. Assim a vi e ouvi, de fato ou por suposição apenas. Levantavame,
espetava o poder de visão, aguçava os ouvidos... E tudo se perdia, de novo, nas brumas da noite
ou nos clamores do dia.
As aves, festejando a alvorada ou lastimando o pôr do sol, e os peixes a espadanar à cata de
insetos ou uns a outros, nada do que me ia pela alma sabiam. Eu curtia a minha dor, o meu tugúrio,
bem ao pé daquela natureza soberba em fragrância. Do firmamento azul não sumiram as luzinhas
piscantes; nem deixou de pender o sol; jamais faltou o passeio dos flocos gasosos pela tela azul do
céu. O céu e a terra não tomavam conta de minhas angústias! Enquanto o caudaloso rio de minhas
penas transbordava por sobre as dunas de minhas impressões recalcadas, o mundo inteiro vivia a
sua vida, o seu destino. Os programas não se confundiam, cada um valia por si.
Certo dia, penetrando cabisbaixo casa a dentro, sob o olhar triste de dois orfãozinhos que de
mim deviam desejar mais, tive pela frente a figura veneranda de Sinhá Marta, mestiça de índio e
português, cuja idade bordejava os oitenta.

— Sinhô, vê bem o que faz... Essas crianças não podem ser vítimas assim de sua fraqueza...

Permaneceu quieta por alguns instantes, temendo qualquer reação de minha parte, mas
prosseguindo, a seguir, num assomo de coragem:

— Desculpe-me, mas já é tempo de levantar a cabeça... Esse menino e essa pequerrucha,
como vê, não podem continuar assim...

Sinhá Marta tinha razão, farto estava eu de sabê-lo. Mas a vida, aquela vida foi
transcorrendo, por dias e mais dias. Aquela velhinha boa era o esteio da casa, a segurança de tudo e
todos. Vinha de servir a meus falecidos pais e ali estava, firme na sua envergadura de nobreza,
sobranceira por sobre os anos e a alvura de seus cabelos. Cedia, pouco, muito pouco, ao guante do
tempo; mas não tinha ao que apelar, como nenhum mortal tem, encarquilhando-se cada vez mais,
curvando sobre si mesma o peso do corpo, a quem tanto de obrigações atribuía.